Abril!
Cabelo curto, grisalho, fuma, com um ar distante num banco da Avenida da República. 50 anos de Abril e as ruas de Lisboa estão repletas de pessoas. Diferentes gerações, religiões, cores partidárias, orientações sexuais, mas todos unidos pela vontade de celebrar Abril, os valores da Liberdade e uma vontade imensa de afirmar que Abril está vivo e que permanecerá vivo.
Em que pensará aquela mulher do cigarro? Estará só cansada de ter descido a Avenida no meio de milhares de pessoas? Pensará em como o país mudou nestes 50 anos? Ser-se jovem em abril de 1974 terá sido um privilégio, uma oportunidade, uma responsabilidade por ajudar a criar um país democrático ou uma miscelânea?
Estará só cansada porque sente o peso de uma vida de trabalho e sacrifício? Abril prometia tanto, mas será que a sua vida foi assim tão diferente da vida da mãe e da avó? Veste calças, fuma e está sozinha na rua, algo impensável no dia 24 de abril de 1974.
Acaba o cigarro, levanta-se lentamente, mas com um ar determinado. Os olhos brilham e num vislumbre percebo que aquela mulher, se conseguir, no próximo ano voltará a descer a Avenida, de cravo ao peito, enquanto agradece porque, mesmo imperfeito, Abril foi, é e será uma conquista.
(escrito no dia 25/abril/2024)






















