Ser mulher no Afeganistão
"Zunaira faz que não com a cabeça:
- Não estou para voltar desgostosa para casa, Mohsen.
As coisas da rua vão estragar-me inutilmente o dia. Sou incapaz de passar diante de um horror e de fazer como se nada fosse. Por outro lado, recuso-me a usar o tchadri. De todas as albardas, é a mais aviltante. Uma túnica de Nesso não me faria sentir tão indigna como essa farpela funesta que me coisifica apagando-me o rosto e confiscando-me a identidade. Aqui, ao menos, sou eu, Zunaira, esposa de Mohsen Ramat, trinta e dois anos, magistrada despedida pelo obscurantismo, sem processo nem indemnização, mas com suficiente presença de espírito para me pentear todos os dias e cuidar de mim como a menina dos meus olhos. Com esse maldito véu, não sou nem ser humano nem besta, não passo de uma afronta ou de um opróbrio que, qual enfermidade, tem de esconder-se. É duro de assumir. Sobretudo para uma antiga advogada, militante da causa feminina. Peço-te que não penses de modo nenhum que estou a fazer cerimónias. Bem gostava de proceder de outro modo, mas ai! o coração já não pode. Não me peças que renuncie ao meu nome, às minhas feições, à cor dos meus olhos e à forma das meus lábios em troca de um passeio pela miséria e a desolação; não me peças que seja menos que uma sombra, um frufru anónimo largado numa galeria hostil. Sabes como eu sou susceptível, Mohsen; odiar-me-ia por querer-te mal quando procuras apenas agradar-me. "
em As Andorinhas de Cabul, de Yasmina Khadra, págs. 68 e 69






















